Fúria – a história e as histórias do heavy metal no Brasil
Prefácio (aka Carmina Burana)
Por Luiz Cesar Pimentel & Wikimetal
O Brasil era um país bem estranho em 1985, 1986. Não se votava para presidente – o primeiro presidente pós abertura foi Tancredo Neves, que morreu antes de assumir deixando involuntariamente a nefasta herança de José Sarney e seu Plano Cruzado, que colocou o país de joelhos. Não existia TV a cabo e o país parava pra assistir Roque Santeiro à noite, ou Sala Especial (soft pornô) às sextas. Os traumas geracionais eram a descoberta da camada de ozônio e o perigo da passagem do Cometa Halley. Além, é claro, da escala de crescimento dos casos de HIV positivos, então conhecidos como aidéticos. Ou ainda pior, contaminados pela “peste gay”.
São Paulo era mais estranha ainda, pois o fluxo de informações não era como o atual e a cidade era ainda mais vértice representativo do país. O prefeito era Jânio Quadros, eleito com o jingle “Varre, varre, vassourinha…”. O grande programa para a garotada era ir a um cinema na avenida Paulista, assistir os sucessos em cartaz, como “De Volta Para o Futuro” e “Goonies” e emendar com um lanche em um dos dois McDonald´s da via marco da cidade.
Mas o que mais recordo desses meados de anos 1980 é do calor que fazia. É uma memória que quase traz o sentimento físico. Certamente propiciado porque, independente das condições de tempo e temperatura, o uniforme que meus amigos e eu vestíamos não fugia da calça preta apertada (quase um torniquete no tornozelo), tênis Pony branco de cano alto, camiseta preta, casaco de couro (courino, melhor colocando) estilo motorcycle man, zíper cruzado no peito, e colete jeans com patch a cobrir as costas todas por cima.
Era assim que estava a turma de headbangers na tradicional manhã de sábado em frente à Woodstock Discos, na ladeira da Rua Doutor Falcão, no centro da cidade. Era assim todos os sábados.
Woodstock era a rede social paulistana headbanger à época. Dá para dizer que era a rede social brasileira, já que vinha gente de todo o Brasil para saber e consumir as novidades metal, como os irmãos Cavalera. “O Walcir (Chalas, dono da loja) se ligava no perigo que eu e o Max (Cavalera) passávamos, por isso abria a loja mais cedo só para a gente comprar. Depois voltávamos de ônibus para Belo Horizonte e gravávamos milhões de fitas para a galera”, contou em entrevista recente Igor Cavalera, narrando a epopeia antes de formar o Sepultura com o irmão.
Pela loja passavam cerca de 1000 headbangers a cada sábado. Loja cheia, povo trocando ideia, trocando fitas K7 no calçadão em frente, quando surge um pesadelo metal isolado no meio da multidão, um careca do ABC (acrônimo das três cidades industriais da região metropolitana de São Paulo, Santo André, São Bernardo e São Caetano).
A situação dos skinheads à época era bastante confusa. Grosso modo, não existia o alinhamento político do extrato working class da sociedade. Não era a revolta pela ausência de empregos ou pela crise do lixo, como fora na Inglaterra, mas soava e os integrantes agiam mais como se fosse revolta pela revolta, simplesmente. Dentro desse (ou dessa falta de) contexto, nasceu polarização e ódio contra os headbangers.
A recíproca não era verdadeira. Posso dizer porque participava do lado negro e cabeludo da força. Comecei a frequentar a Galeria do Rock quando só havia ali a Baratos Afins (classic rock, novo rock e heavy metal), Grilo Falante (mais classic e menos metal) e a Punk Rock Discos (punk, skinhead e afins). Ficava horas perambulando entre as três e volta e meia dava de cara com um dos meus ídolos do movimento punk/hardcore, como Clemente (Inocentes), Fábio (Olho Seco e também dono da loja) ou Rédson (Cólera). Ou seja, não havia ódio de headbangers. Também não havia amor. Havia admiração pela música. Mas sabe-se lá por quais raios, os skinheads nos adotaram como inimigos e toda semana ficávamos sabendo de caso de headbanger que apanhara.
Voltando à manhã de três parágrafos atrás, eis que chega um careca do ABC em meia à turma do metal. Maioria do povo ali era moleque (como eu) e interessado tão somente em música (como eu) e não em briga, e torcemos silenciosamente para que fosse alarme falso e que ele saísse sem stress.
Ele não pensava assim.
Começou a causar, até conseguir arrancar uma briga com um headbanger também do ABC – era a vertente do povo do metal um pouco mais velha e com menos paciência que nós.
Começaram a rolar pelo chão da inclinada Rua Doutor Falcão até que o skinhead puxa um machadinho (eles costumavam carregar um) e é desarmado pelo headbanger, que usa a arma contra o dono e crava na parte de trás da cabeça, próximo à nuca, a lâmina.
Lembro de um silêncio sepulcral nesse instante. Aliás, toda a cena foi tão forte e representativa que ela vem em flashes para mim, quase 30 anos depois.
Próximo flash tem o sknihead subindo a rua praguejando e fazendo ameaças de morte por quem passava. Mas ainda com o machadinho cravado na cabeça.
História real. Mais que chocante, representa em quase plenitude o que era o movimento heavy metal brasileiro na gênese.
Fomos e somos os ratos do subterrâneo da música popular brasileira (afinal, quem na música brasileira é mais popular que o Sepultura no exterior? Tom Jobim? Ok. Mas segundo lugar é considerável.).
Nascemos e nos reunimos no centro sujo da cidade. Escondidos (ou ocultos) do cenário televisivo. Mas nós não estávamos interessados em ver ou em ser vistos. Pois mesmo como aqueles que a televisão não mostra, até hoje, somos os únicos de um movimento que ainda lota estádios em shows, como Metallica e AC/DC. Somos milhões. No underground. Quais ratos.
Mas sempre estivemos ali pela música. Seja trocando fitas na porta de uma loja, seja em páginas de revistas criadas por nós e que até hoje estão em circulação, seja na internet e agora em livro. Pois nosso princípio básico é um só: viva sua vida da maneira que quiser assim como vivo a minha, e se existe uma diferença entre nós é que gosto de música extrema. Isso não faz de mim um maníaco. Mas também não faz de mim um covarde. Pelo contrário. É uma filosofia que nos orgulha. Épica, diria.
Como todo épico, tem seus heróis. Aqui vão eles. Está dada a largada da saga.
——
Leia Capítulo 1: Nativity In Black
Leia Introdução do Livro Fúria
Ajude a escrever a história do Heavy Metal no Brasil. Deixe o seu comentário que ele pode parar dentro do livro e o seu nome nos créditos, pois este é o primeiro livro colaborativo, evolutivo e inovador escrito por todos aqueles que amam o Heavy Metal e querem deixar registrada a História do Metal no Brasil.









Parabéns pela iniciativa, esses esforço em relatar a o passado da cena é muito caro ao gênero Heavy Metal e isso se faz por meio de um recorte, no caso a cidade de São Paulo.
São Paulo certamente foi [não sei dizer se ainda é] o epicentro do Metal no Brasil, mas venho pontuar aqui em nome de outras cenas, de outros Estados e cidades, que por pequenas que fossem, também fizeram parte desse momento inicial e todas juntas, cada uma a seu modo, nos ajudam a montar a história do Heavy Metal no Brasil.
Oi Natália,
Brigadão pelo seu comentário, super pertinente… A cena de todos os lugares do país têm (e terão) o seu devido lugar na história do Metal Brasileiro. Por isso, eu queria acrescentar que a idéia e o intuito do livro “Furia” é pra escrevermos juntos a história do Metal no país inteiro e não só a de São Paulo…
Já coletamos muito material de vários lugares do país, mas seguramente vamos precisar da participação e contribuição de muita gente do Brasil todo…
Por isso, à medida que os capítulos forem sendo postados você (ou quem quiser) pode (e deve) ir colocando suas histórias, suas lembranças, pois tudo vai ser compilado e vai entrar no livro. Por isso, se quiser/puder redigir um texto legal, vai ser bacana pois será editado pra entrar no livro.
Um abração !!!
Opa, valeu mesmo Daniel e Luiz, espero poder contribuir em algum momento. Sigo acompanhando os próximos capítulos.
Fala, Falera do WikiMetal.
Achei bárbara a iniciativa de vcs e quero saber como faço para ajudar nesse livro!
Abraços!
Só um adendo: É Galera do WikiMetal!! rs
Olá, fiquei, claro, emocionadíssima com suas palavras. Vc soube descrever um sentimento guardado a sete chaves, um sentimento de vida, de amor a vida e ao que pudemos compartilhar naqueles dias. Me disponho a colaborar com histórias q vivi a partir dos anos 80 e que perduram ainda hoje, pois sobre sermos ratos, ainda me considero uma rata, ultimanente apenas de shows, mas uma rata q ainda luta pelo ideal Metal do Brasil. Valeu!!!!!
Natália, Alessandra, Lynnirada, vocês tem total o espírito do projeto. Muito obrigado pelo feedback e pela proposta de ajuda. É só mandar para info@wikimetal.com.br a contribuição. Espalhem também para outras pessoas, afinal é um livro colaborativo. A história não é de ninguém. bjs a todas e obrigado de novo.
opa, enviei um email no info@wikimetal, alguma coisa so bre porto alegre, espero ter ajudado.
keep fighting!hehe
Valeu Carlos, a cena de Porto Alegre é muito importante. Conheço o Flavio do Leviaethan e esse vai pode ajudar muito, é alguém que está vivendo o Metal de perto há muitos anos, além de ter uma grande banda e lançado grandes discos. Além desses músicos, a participação de vocês é muito importante para o projeto. Vamos finalmente poder contar essa história. Obrigado pelo apoio ao WM!
612334 149630Jane wanted to know though your girl could certain, the cost I basically informed her she had to hang about until the young woman seemed to be to old enough. But the truth is, in which does not get your girlfriend to counteract employing picking out her quite own incorrect body art terribly your lady are normally like me. Citty style 758003
Final da década de 80, depois de um grande show de uma das melhores bandas de Metal da época o Destruction, saímos todos do Projeto SP na Barra Funda, rumo ao Metro, e ao olhar em direção á estação, reparamos que estava saindo o maior quebra pau entre carecas e cabeludos. Esperamos chegar mais “headbangers” e juntamos mais de 50 cabeludos para irmos ajudar nossos irmãos, quando de repente, bem atrás de nós , só deu pra ouvir o “pipoco”. Haviam nos cercado, ou já estavam escondidos e armados e esperaram pra nos emboscar.Só se via cabeludos correndo, corri tanto que fui parar na Marechal Deodoro e ainda entrei em õnibus errado. Mas valeu, marcou muito a época.
vivi minha adolescencia toda entre a galeria e a woodstock
todo sabado de manha …comprando fitas e vinyl…
vendendo fotos de revistas …
varias cenas homericas rolaram naquela minuscula pracinha entre a molecada q curtia ali na frente
desde as visitas do Raul ( RAUL SEIXAS ) …ate os pegas e cercos q os carecas faziam pra pegar a galera…
uma cena q nunca esqueço foi o dia q a carecada cercou todo mundo …careca vindo da praça e por cima do viaduto das bandeiras, da dr falcao, da prestes maia e das vielas q cercavam a woodstock, foi um corre corre pra dentro da woodstock, o dario ( q trabalhava na wood chamou 1 pra entrar e todo mundo invadiu a loja ), so nao deu descraça pq o walcir e o toninho , donos , tinham seguranças em volta da loja q deu uma amenizada ate a policia chegar e dispersar a orda
o walcir trouxe bastante gente la
os caras do venom
os caras do exciter
sao figuras q eu me lembro
muita gente tinha apelido ou sobrenome das bandas q curtia… Marcelo venom…fernando Vanhalen
Mau nowar…ricardo misfits, entre outras figuras
a wodstock era o ponto do metal e a galeria era um espaço mais ecletico…rockabilly, psicobilly, punks, etc, etc
as duas eram o ponto de encontro do povo underground de sampa…nao era moda…era outro tipo de atitude
Olá, seu texto retratou bem o que passávamos nos anos 80, sou de Santa Catarina e por aquí o movimento era restrito, pequeno mesmo! Novidades eram obtidas com as revistas Metal, Rock Brigade e até a Som 3! Programas de radio sempre tentávamos captar das emissoras de São Paulo! Fui algumas vezes na Woodstook, e sempre voltava recheado de Vinis novinhos, o que , depois, viravam fitas cassete para troca!
Aqui antes do Rock in Rio 85 a coisa era difícil, mas depois apareceram mais lojas, programas e bandas e a coisa firmou e só cresceu!
Tenho orgulho de ter passado por isso tudo, e ter feito parte dessa história maravilhosa que é minha vida, o Heavy Metal!
Lembrei de minha juventude, quando trocava fitas k7 com um som sofrível, mas que eram a única forma de conhecer as novidades. Em Minas, tínhamos a Cogumelo, point do movimento Heavy Metal no estado, onde ia e parecia viajar para outro mundo… 30 anos depois, o amor ao Heavy Metal continua o mesmo!
Cada dia que passa fico muito mais orgulhoso em ser headbanger…
Hoje li esta matéria e vi que ainda existe pessoas que ainda leva a verdadeira historia dos headbangers brasileiros.
Aqui em BH (como disse o César) tínhamos a Cogumelo.
Eu já sou da década de 90 e peguei um pouco daquele movimento dos anos 80.
Uns dos movimentos que não esqueço é a da feira do Colégio Arnaldo em BH, tinha um camarada que muitos conheciam o Toninho Capeta que sempre vestia sua camisa do Venom com aquele tênis Bamba das antigas…saudades
E a feira do Eldorado região metropolitana de BH.
Ô tempo bommmmmmmmmmmmmm